A palavra cultura encontra a sua origem na descrição daquilo que se planta no solo e de que se cuida para que cresça e dê frutos. A lógica com que ela foi utilizada para descrever os costumes sociais e o conjunto das criações artísticas do Homem é, portanto, uma lógica correcta, sem me querer alongar mais nesta questão.
Nesse sentido de cultura, o cuidar paciente e planeado é essencial para que os frutos sejam, de facto, os esperados. Aqui, entende-se frutos como uma comunidade instruída ou pelos menos disposta a instruir-se e procurar.
A função do ministério da cultura, em grosso modo, é criar condições para que haja oferta e procura, e que estas se encontrem num patamar de qualidade que não mais as afaste; qualquer coisa sólida que as fixa e não um conjunto de efemeridades.
Posto isto, na identificação dos problemas graves do sector cultural encontramos dois que me parecem fundamentais resolver: a falta de projecto cultural e a consequente falta de formação de públicos.
Centremo-nos na formação de público, para já.
É sabido que o público é, por norma, ignorante, preguiçoso e desinteressado. O primeiro combate será diminuir o mais possível estas características. Para isso, não basta só vir cheio de ideias para implementar de imediato. Este é um trabalho longo e cujas raízes precisam de estar bem consolidadas. A parte inicial deste trabalho deverá ser definir o âmbito das competências culturais com as autarquias e Estado central. Depois, promover a participação dos cidadãos em actividades lúdicas, por mais populares que sejam. Trazer os cidadãos para a rua e fazê-los trabalhar para a sua própria diversão e entretenimento é fundamental para a formação de públicos.
É mais fácil cativar uma comunidade que convive e que troca conhecimento. São cada vez menos os que vão transmitindo velhas sabedorias de rua. Tudo é relevante para o conhecimento. Não tem de ser só aquilo que a elite cultural julga. A rua é essencial porque gera competitividade e interesse pelo desconhecido. Fechado em casa, o cidadão terá mais tendência para sair cada vez menos.
Depois deste passo importante na mentalidade do Estado, convém então passar à parte em que se aposta num plano para abrir as portas das salas de arte e do espectáculo (palavra feia para aqui). Começa, assim, a hora de demonstrar a diferença real entre cultura e entretenimento.
Se por um lado compete a cada localidade promover a sua própria cultura, para o seu público específico, por outro lado compete ao Estado amparar as associações e afins que o queiram fazer. E amparar não é subsidiar. Amparar é dar condições infra-estruturais, servir de elo de ligação e disponibilizar todo o material possível que ajude ao estudo e ensino das várias artes.
Nesta fase, ou até mesmo na fase anterior, a formação propriamente dita é fundamental para que os mais novos comecem a caminhar no bom sentido em vez de andarem a ser re-direccionados posteriormente.
Também nas festividades das vilas, das cidades e dos municípios não deve o Estado interferir, dando à sociedade civil a capacidade de fazer o papel de agente directo na produção cultural.
Hoje, torna-se fácil enfiar um palco numa praça com dois ou três grupos et, voilá! temos o Senhor de Matosinhos. Enquanto isso, os cidadão perdem noção da sua própria origem.
Temos, em suma, o incentivo à participação, a formação e a produção não-estadual (o que não quer dizer que seja privada) como sementes de um plano que teria de ser pensado a longo prazo. Como se diz e bem, a pressa é inimiga da perfeição. Não que queiramos ser perfeitos, mas pelo menos iludimo-nos que somos um bocadinho melhores.