
Contam alguns amigos que os pais ou os avós falavam com a televisão nos primeiros tempos. Alguns ainda o fazem. O surgimento do aparelho alterou substancialmente os hábitos dos portugueses e muito rapidamente a "caixinha mágica" passou a ser uma obsessão. Duas, três, quatro televisões em casa, televisões portáteis, televisões na cozinha e na casa-de-banho. Em todo o lado, para não perder pitada do que se passa no mundo, televisões e mais televisões. Chegamos a casa e ligamos a televisão, jantamos com ela ligada, seguimos religiosamente a série e a telenovela. Chegámos mesmo a abdicar da nossa vida social para o fazer. E não é preciso nenhum Big Brother para justificar por que razão o fazemos. Vai muito mais longe do que isso, já que até o tele-vendas tem audiência.
Hoje, a obsessão mudou. Cada vez mais a internet ocupa o lugar da televisão. Notícias a tempo inteiro, milhares e milhares de blogs, dezenas de redes sociais, vidas e vidas por observar. O voyeurismo faz parte do homem e a internet alimenta-o com mais realismo, numa espécie de Big Brother espontâneo. Os computadores portáteis são cada vez mais visíveis. Poucos lhe dão um uso exclusivamente profissional, mas é seguro que a grande maioria seja um utilizador dedicado do MSN, do Hi5, do Facebook, do Twitter. Janelas e janelas de chat abertas; dezenas de mensagens sobre o que se está a fazer no momento; frases do dia, citações ranhosas e lamechas e clichés.
A internet deu às pessoas aquilo com que sempre sonharam e com que os seus avós já sonhavam também: falar com a televisão. A necessidade das pessoas nunca foi adquirir conhecimento e informação, mas sim coscuvilhar a vida alheia e ter companhia para poder falar da sua. Daí o interesse pelas novelas. Há sempre uma necessidade de fazermos da nossa própria vida uma novela. Por isso criamos blogs e micro-blogs e alter blogs e outras mil ferramentas.
Esta nova obsessão que nos prende ao novo ecrã, a que agora chamamos monitor, está a espalhar-se como as televisões na cozinha e na casa-de-banho. Há quem ache que é o futuro do amanhã. Pois eu acho que, tal como a televisão, é só mais um motivo para nos afastar da realidade, por preguiça ou por medo. O resultado não será certamente positivo.
2 questões pertinentes:
Ora, Jorge C., Você sabem bem que fora da net nao há realidade.
Um dias destes fiquei a saber que já existem chats em que é possível estarem cinco ou seis gajos ao mesmo tempo, e a verem-se todos ao mesmo tempos,e a falar para microfones ao mesmo tempo.
Porra, mas por que raio não vai esta gente toda junta ao café beber umas cervejas?
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