A sequência de posts anterior serviu como ponto negativo para restabelecer o equilíbrio numa visão sobre Portugal. O Ministério da Economia tenta hoje vender um país que não existe, como podemos ver neste cartaz e no post de Taxi Driver.
Que país quer, então, o Dr. Manuel Pinho vender?
Tenta-se dar a ideia de que somos um país sofisticado e elegante. As praias do All Garve são a nossa marca de referência para um turismo que há-de vir. Temos internet em todo o território, auto-estradas com 4 faixas de cada lado - quer dizer, em algumas partes - e estamos quase a ter um novo aeroporto e um comboio de velocidade supersónica para andar nas linhas da Refer.
Acima de tudo, temos a ASAE que nos impede de parecer os europeus medievais da higiene alimentar. Assinámos Bolonha e caminhamos a passos largos para ter miúdos de 21 anos a serem explorados para o resto da vida em atliers e escritórios e sociedades não sei de quê. Mas tudo bons alunos, hã?!
Com efeito, o Dr. Manuel Pinho pretende vender um bom aluno, um aluno certinho e bem comportado, limpinho e bem arranjadinho... mas doente!! Um Eusebiozinho portanto!
Nunca seremos o bom aluno. Somos um país de preguiçosos e sedentários. Engordamos lentamente nos cafés onde agora proibiram o fumo para tentar tapar a decadência ancestral de um povo vigarista. Continuamos ligados à trilogia dos F's que parece não ter fim. Somos parolos e labregos na mesma medida que o era D. Pedro quando se tornou imperador do Brasil. E como ele somos promiscuos e machistas. Temos La Feria's e Tertúlias Cor-de-Rosa que alimentam as tardes e os serões dos mais velhos. Gostamos de árvores grandes de estrutura metálica. Temos os nossos rios poluídos por fábricas que desrespeitam as leis do país, mas depois deixamo-los pagar taxas de poluidor e siga caminho. Temos construtores, nas barbas e com a permissão do Estado, a construir em zonas não permitidas - reservas e dunas - à custa de favores e manhas por baixo da mesa. Temos uma classe política decadente e vigarista que se arrasta ao longo de anos pelas autarquias e traz consigo uma série de processos onde foram constituídos arguidos. Temos uma Assembleia da República que parece ser a mesma desde 1888 e temos leis que são mesmo dessa data. Os nossos políticos alimentam-nos com demagogia e nós comemos e comemos, enquanto vamos reclamando na mesa do café, onde agora não se pode fumar.
Temos uma taxa de envelhecimento altíssima e um sistema de segurança social que pelo menos há 10 anos dizem que vai falir. Temos Hospitais superlotados e uns cromos a entrarem com médias de 19 para medicina, no mínimo. O ensino base, desde o primário ao secundário é fraco no público e extremamente elitista no privado. As pessoas dependem todas do Estado e o Estado depende da União Europeia, enquanto esta depende dos países mais desenvolvidos, e seja o que eles quiserem. Ainda existem centenas e centenas de minifundiários pelo país e os latifundários tentam evitar a falência, mas a grande parte já disse adeus às vacas gordas há muito tempo. O interior está deserto há 30 anos ou mais, mas já tem internet. As escolas e os serviços de urgência permanente estão a fechar em grande velocidade. Para não falar da eterna dicotomia entre a saudade e a esperança simbolizada na figura de El Rei D. Sebastião. E muitas, muitas mais coisas haveria a dizer e que só nos podem deprimir todos os dias.
Este não é o país da West Coast of Europe, sr. ministro. Esta é a ocidental praia lusitana, como escreveu o grande Camões. E na ocidental praia lusitana vivemos muito felizes com o que temos, mesmo que seja uma desgraça. Gostamos dos nossos rojões à moda do Minho e das papas de sarrabulho a acompanhar. Depois gostamos de andar pela Peneda-Gerês com o frio a gelar os ossos. Gostamos de Trás-os-Montes e dos carros de bois nas ruas, de espreitar as montanhas e dizer bom-dia a todos os que passam. Gostamos da alheira de Mirandela e dos socalcos do Douro. Gostamos de vinho, sr. ministro! Gostamos muito de vinho!
Gostamos de vir pela costa e cheirar o vento a bater na cara enquanto descemos as dunas e nos enrolamos com as raparigas sejam elas de ontem ou de hoje. Gostamos da Serra da Estrela e do queijo que, com as suas próprias mãos cheias de merda de cabra, aquelas pessoas fazem com tanto carinho. E que delicioso é, sr. ministro! Gostamos de toda a Beira. Gostamos do cozido do Dão, de todos os chouriços e das árvores que tapam a estrada de Castelo Branco a Nisa. Gostamos do Ribatejo e alguns de nós gostam de ver os touros na praça e de ver o toureiro mano a mano, de peito feito para esse belo animal. Gostamos de coiratos e torresmos e de fazer piadas sexistas e racistas, maior parte das vezes sem qualquer maldade. Temos a mania, é o que é! Gostamos de ver as ondas na Ericeira e os moinhos por trás. Gostamos da urbanidade possível em Lisboa e no Porto, dos seus tascos ranhosos, do bagaço que todos dizem ser da sua aldeia e do peixe acabadinho de chegar. Gostamos do fado á noite, cheio de fumo, triste e decadente. Ah! Como é bela a decadência, sr. ministro!
Gostamos de olhar as searas e tocar no cal das casas do Alentejo, de nelas entrar e comer uma açorda e um delicioso borrego. Gostamos de comer, sr. ministro! Então doces... nem se fala! Gostamos de trouxas de ovos, ciricaia, baba de camelo, rabanadas, pastéis de nata e eu sei lá mais o quê. Gostamos de todas as praias, do Norte ao Sul.
E gostamos de festa! Das Flores de Campo Maior, do Colete Encarnado e do Barrete Verde, e da Santa Luzia e S. Bartolomeu e tudo o que dê para cantar e dançar, comer e beber e brincar. Gostamos tanto de brincar!
E gostamos de navegar! Gostamos do pôr-do-sol na Ferraria e de ver os putos todos fodidos em Rabo de Peixe, miseráveis a brincar pelas ruas coloridas de tão pobre localidade. Gostamos da cor de S.Miguel e da claridade do Heroísmo. Gostamos da baía do Funchal iluminada à noite.
E mesmo pobrezinhos. feios, porcos e maus, gostamos de olhar o céu à noite e ver as estrelas lá em cima. E então, despimo-nos e ficamos nus como num poema de Pessoa, embriagados pelo ar e pelo amor. Gostamos de ser felizes assim, à nossa maneira!
Subscrever:
Enviar comentários (Atom)
6 questões pertinentes:
...e gostamos de dizer mal do nosso país, dos nossos ministros e deputados, das nossas leis e fados, dos nossos queridos e amados calaceiros, dos filhos da puta que nos fodem e dos bardos que nos mostram o que não queremos ver.
E de ler estas coisas, lamechas e sentidas.
Abraço
Não concordo com tudo aquilo que aqui escreveste. Podia argumentar no sentido de te dizer que as coisas estão a mudar e que o senhor/doutor/engenheiro/arquitecto Manuel Pinho até terá razão num ou noutro ponto. Podia ser racional. Mas não consigo.
É que, na verdade, no final de ler o texto, os argumentos desaparecem e surge a vontade de o ler outra, e mais outra e ainda mais outra vez. Porque tem ritmo, porque tem sentimento, porque tem garra, porque é uma espécie de retrato e porque merece ser lido em voz alta para muita gente ouvir. Porque está excelente e porque há muito tempo não lia um texto sobre este assunto com estas características: parabéns! :)
Bem depois do comentário anterior, não vale a pena elogiar!
Mas estou com o Filinto, "e gostamos de dizer mal do nosso país.."
Esta coisa de andar agarrado ao fado e às lamentações, confesso, já chateia! Mas é o que há!
Beijinhos
BRAVO!!!BRAVO!!!BRAVO!!!
e mais não digo... :)
e o lado errado da noite, tbm voce a querer esconder o putedo e a absolvição, francamente
Muito bem escrito!
Enviar um comentário